Fazendo parte das atividades do festival de teatro da amazônia mato-grossense, o núcleo do fazimento da cena realizou oficina de dramaturgia. Oficina: DramaturgiaS: da aparência à essência, provocações para a composição de um ato cênico de identidade. Por: Tania Capel
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A proposta dessa oficina de dramaturgia foi trabalhar a questão da dramaturgia da cena, vendo-a como a leitura do todo do espetáculo e não uma parte – o texto. O texto teatral – a dramaturgia textual – pode ser analisado dentro de uma teoria literária, mas a partir do momento em que é concretizado em cena, passa a pertencer a outra esfera, ao espetacular, onde todas as partes dialogam e não podem mais ser consideradas separadamente, fazendo-se necessário abandonar a ideia mecanicista, ainda em voga, de decompor em partes o objeto para ser analisado e entendido. Neste sentido, o primeiro desafio está delineado: conduzir o participante a pensar a dramaturgia como fenômeno teatral considerado em sua totalidade e, companheiro de jornada, o pensador espanhol Ortega & Gasset apontou caminhos com a introdução de seu livro A Ideia do Teatro.
Estabelecido um pensamento comum ao grupo sobre o espetacular, partimos para o próximo ponto de nosso itinerário: perceber que a realidade da dramaturgia contemporânea é apresentar uma fusão de gêneros e recursos estilísticos definidos em um plano estético para o espetáculo. Primeiro investigamos a "teoria dos gêneros" apresentada por Anatol Rosenfeld em seu O Teatro Épico, definindo dramaturgia, lírica e narrativa como gênero literário, o autor atenta para o fato desta mesma nomenclatura ser utilizada para classificar recurso estilístico e, portanto, temos os gêneros misturados. Teoria um pouco complicada e a dificuldade de falar a um público misto de atores, dramaturgo (Agostinho Bizinoto), educadores, gestores e curiosos, porém contando com um importante aliado: o fato da oficina estar inserida dentro de um Festival de Teatro que possibilitou o contato dos participantes com espetáculos que ilustravam as discussões teóricas, servindo como grandiosos exemplos. Nossos encontros passaram, logo após o primeiro contato, a ser um momento de troca e reflexão sobre o festival.
Terceira parada do itinerário – e talvez a mais importante considerando a particularidade do grupo de participantes – foi o exercício de analisar as montagens assistidas sem juízos de valores, focando na investigação dos processos e seus resultados. Para os envolvidos na arte do espetáculo uma busca sobre "pessoalidades" que se concretizam como verdades cênicas, para os demais uma qualificação como público. Este ponto só foi possível graças ao esforço da organização do festival em manter uma vivência entre todos os participantes e o envolvimento, tanto de artistas quanto de público, integralmente nas atividades do festival. Indiscutivelmente, uma experiência intensa e inesquecível. É a arte produzindo pensamento!
Entendida a dramaturgia do espetáculo, partimos para as possibilidades de realizá-la, afinal, é fundamental abrir possibilidades concretas. Um dos caminhos, experienciado e documentado – portanto plausível de ser estudado – é o do trabalho colaborativo, tomando como exemplo grupos que apresentaram trabalhos satisfatórios com esse processo. Interessante foi a troca entre a realidade de São Paulo, onde os grupos se organizaram para lutar por políticas públicas que garantissem sua sub-existência, e a realidade local, onde o grupo – Teatro Experimental de Alta Floresta – organiza-se para construir um plano de ação cultural. Discutiu-se largamente o teatro de grupo, a horizontalidade e as funções artísticas de cada indivíduo envolvido no processo da criação coletiva. Na ausência de um elemento no grupo que domine a técnica da construção do texto, o trabalho colaborativo e a pesquisa investigativa, são soluções para a criação do espetáculo.
Não existe uma receita pronta para criação da dramaturgia, existe sim, algumas estruturas que podem facilitar esse processo. O mais importante foi o pontapé inicial, o interesse que moveu a todos ao nosso encontro e a mudança que começou a florescer em cada um, inclusive em mim, vinda de outro estado, onde a realidade talvez seja um pouco diferente, mas a necessidade de arte é a mesma.
